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in O Varzeense de 30/10/2018 |
Aqui fica o texto:
Capuchos XXI
“Sinto que se aparecesse numa história seria como
personagem secundária. Até na minha própria vida não passo de tal” estes
pensamentos assaltavam a mente de José enquanto examinava a contracapa de um
romance. “Talvez porque pense demasiado nos outros, talvez por não ter uma
grande estima de mim mesmo.“ Estes tópicos eram fundamentais para ser um bom
escritor. José considerava que um bom poeta ou escritor nunca era alguém
completo, pois se fosse não teria nada de bom para escrever. Mas estas ideias
também criavam uma espécie de crise existencial em José, pois passava dias a
pedir meio para si, meio para o mundo “Gostem de mim, gostem de mim! Estou
aqui, existo…” Hoje damos muita pouca atenção aos outros, por falta de tempo e
de vontade. Desapareceu a partilha. E talvez fosse por isso que José gostasse
tantos de livros. Um livro é um objeto, uma coisa, que se acaba por tornar viva
pois com ela nós podemos partilhar. O livro partilha connosco e nós partilhamos
com o livro ao ponto de conseguirmos ter uma relação quase carnal, quase sensual
com o livro. E apaixonamo-nos. Quantas vezes já não tinha José se apaixonado por
personagens ou pelos autores. E porquê? “Porque isto aqui escrito está a dizer exatamente
o que sinto… o que sinto mas não sou capaz de dizer, de descrever.” E era por
isso que José queria ser escritor. Queria partilhar com o mundo, marcar pessoas
a partir dessa partilha e conseguir com que elas ficassem com o amor pelas
coisas belas. E nesses momentos ser apenas uma trivial personagem secundária
não lhe parecia assim tão mau. Afinal qual seria a vergonha de o ser se
conseguisse com que os outros se sentissem as personagens principais das suas
vidas graças à sua escrita? O livro é algo imutável ao tempo. Pode ser lido e
relido quinhentas vezes sem nunca haver alguma mudança nas personagens e na
história, no seu conteúdo. No entanto ao reler um livro pode haver uma mudança
no leitor, seja pelo estado, idade ou mentalidade que se tinha da primeira vez,
existirá sempre algo que mude, que passe despercebido mas capaz de mudar o
nosso interior, pois é aí que acontecem todas as transformações, todos os cataclismos,
quando relemos. Isso é outros dos critérios num escritor, bem, para toda a
gente de facto: a capacidade de mudar, adaptar.
Um dos maiores medos de José era esse, chegar o dia
onde será incapaz de tal, onde ficará de tal forma preso no tempo que deixará
de viver e irá simplesmente existir. Outro dos seus grandes medos era ficar
sozinho. Todos os seres humanos necessitam de alguém. Sozinho o ser humano não
é nada, não é ninguém pois precisamos de outros (amigos, cônjuges, familiares
ou meramente conhecidos) para viver… e para comprar as grandiosas obras
literárias que José irá escrever, mas isso é outra história. Mas enquanto José
continuar a ser imperfeito, enquanto continuar a querer viver, enquanto
continuar com medos, receios e desejos José sabe que conseguirá ter todas as
qualificações para ser um grande escritor e, quem sabe, ser promovido a
personagem principal da sua história.
18/05/2016
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Paula Santa Cruz