Mostrar mensagens com a etiqueta Textos Avulso. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Textos Avulso. Mostrar todas as mensagens

sábado, 7 de maio de 2022

Textos Avulsos por David de Santa Cruz

 

in O Varzeense de 30/04/2022



terça-feira, 19 de abril de 2022

Textos Avulsos por David de Santa Cruz

in O Varzeense de 15/04/2022

 

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Textos Avulso por David de Santa Cruz

in O Varzeense de 15/11/2020



Aqui fica o texto:

Reinvenção da Escrita

A prática faz o mestre. É por isso que decidi sentar-me a escrever às duas da manhã. Tenho-me deparado bastante com a escrita, a minha escrita e a escrita no geral. O que é a escrita? A escrita é capaz de ser das artes que pode demorar mais tempo a processar e interiorizar devido à sua grande extensão. A escrita é capaz de arte com apenas uma palavra ou frase, se conseguires molda-la para tal. A escrita é uma arte árdua, cansativa e até por vezes aborrecida. É complicada, as pessoas podem não perceber a tua letra, as tuas palavras, a tua língua e até mesmo onde queres chegar. A verdadeira escrita é abstrata, não faz sentido, é uma arte quase morta, com cada vez mais estímulos à nossa volta torna-se mais difícil focar a nossa atenção numa única ação. Mas será que a escrita pode ser considerada arte? Uma imagem vale mais do que mil palavras, um filme resume um livro de quinhentas páginas e por muito que goste de escrever sei que prefiro mil vezes falar. Deparei-me com estas e muitas questões ao longo das últimas semanas. Será que a escrita vale mesmo a pena? No fundo, simplesmente tenho medo. Mas a verdade é que ao pensar nisto tudo, existe algo que também não se pode negar. O início da “História” do ser humano foi a invenção da escrita, aquilo que não é escrito nunca existiu, e arte é aquilo que nos faz sentir PONTO! Aquilo que se entranha forte cá dentro. Quero continuar a escrever sobre um mundo de contos, aquilo que sinto e das coisas que não fazem sentido… quero continuar a escrever. Com a escrita posso não ser capaz de mudar o mundo, mas sei que consigo tocar no fundo. Estive adormecido, este é o meu grito ao mundo, eu sou escritor, eu crio mundos. Não que com isto esteja a dizer que a escrita é a arte superior a todas as outras, como disse anteriormente, tudo depende de como a moldarmos. E é por isso que eu quero continuar a escrever até chegar ao ponto em que qualquer diferença esta a minha escrita e a arte seja quase inegável. Vemo-nos na meta.

 

domingo, 5 de janeiro de 2020

Textos Avulso por David de Santa Cruz



in O Varzeense de 30.12.2019


Aqui fica o texto:

Fogo, Terra, Ar e Água.

Confesso que o conceito destes quatro elementos sempre me fascinou, justamente por tão “pouco” ser capaz de ser tanta coisa. E com isto de os atribuir às pessoas que vou conhecendo. O Fogo é o elemento do Poder, as pessoas deste elemento possuem desejo e força de vontade, juntamente com a energia e a motivação para alcançarem aquilo que querem. A Terra é o elemento da Substância, as pessoas da Terra são diversificadas e robustas, de cabeça dura, persistentes e resistentes. O Ar é o elemento da Liberdade, estes “nómadas” sabem que tal como o ar, a vida percorre por muitos lugares, aprendendo assim a se desprenderem das preocupações mundanas e a encontrar paz e conforto na liberdade e todas as suas possibilidades. Água é o elemento da Mudança, as pessoas desta tribo são capazes de se adaptar a muitas coisas, possuindo um profundo sentido de comunidade e amor que os segura e empurra sobre tudo. Agora, se ouvires com força o suficiente, serás capaz de sentir todas as coisas vivas a respirarem em conjunto, serás capaz de sentir todas as coisas a crescer. Vivemos todos juntos, mesmo que a maioria de nós não aja como tal. É importante procurar e retirar conhecimento de vários sítios. Se só o fizeres de um único sítio, irás te tornar rígido, inflexível e ultrapassado. Perceber os outros, os outros elementos, e, as outras pessoas, irá te ajudar a tornar-te são e completo. Todos temos as mesmas raízes, todos somos ramos da mesma árvore. Estamos todos ligados, tudo está conectado. Isso mesmo! Até a separação dos quatro elementos é apenas uma mera ilusão. Se abrires a tua mente irás ver que todos os elementos são um. Todos dependemos desse equilíbrio. Criámos uma época de medo nos nossos mundos, se realmente os queremos mudar temos de os substituir por uma época de paz e gentileza. Primeiro, tens de ser capaz de trazer esse equilíbrio a ti próprio antes de seres capaz de fazer com o mundo. Não serás capaz de lidar com esses relâmpagos enquanto não souberes lidar com essa revolta que existe no teu interior. A vida é uma bagunça e as coisas tendem a cair aos bocados, bloqueando a corrente. Mas, se tu limpares esses bocados e desimpedires a corrente, a energia fluí. Preocupaste e receias pelas tuas vivências, mas tens de ser capaz de renunciar esses medos. Deixa com eles fluam pela corrente fora. Agora, olha para tudo aquilo pelo qual te culpas, todo esse peso que carregas. Do que te acusas? Simplesmente aceita a realidade que essas coisas acontecem, mas não deixes com que elas enevoem e envenenem a tua mente e visão. Se realmente queres ser uma energia e influência positiva neste mundo, tens de ser capaz de te perdoares. Do que tens vergonha? Quais são os maiores arrependimentos em ti mesmo? Tens de te libertar desse sentimento de vergonha se queres com que essa raiva desapareça. O orgulho não é o oposto da vergonha. O verdadeiro antídoto para a vergonha é a pura humildade. Solta toda essa dor e tristeza que acartas em ti. De facto, passaste por grandes perdas, mas o amor é uma forma de energia que gira em toda a nossa volta e que ainda está presente no teu coração, renascendo assim, na forma de um novo amor. A seguinte, é a energia do som e da tua garganta. Lida com a verdade e é bloqueada por mentiras, aquelas que dizemos a nós mesmos. Lembra-te, tu não podes mentir sobre a tua verdadeira natureza. Medita sobre aquilo que te prende a este mundo. Quero que te liberte deles, que as deixes fluir pela corrente abaixo, esquecidas. Tens em ti, juntamente com toda esta vontade, o poder para trazer equilíbrio. O tempo de lutar e mudar é o agora.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Textos Avulso por David de Santa Cruz

in O Varzeense de 30.11.2019
Aqui fica o texto:


Passado, presente, futuro.

Estes últimos tempos têm sido, no mínimo, engraçados. Foram dias complicados. O meu espírito encontrava-se destroçado. Cheguei à conclusão que muitas das coisas pelas quais lutei neste último ano mostraram-se becos sem saída e não me satisfaziam. Not originaly what I had in mind. E com isso deixei de acreditar naquilo pelo qual lutava. E com isso deixei de acreditar em mim. Perdi o norte, não conseguia encontrar sentido nas minhas ações. A minha auto estima, confiança e força de vontade bateram no fundo do poço. Não me lembro o quão fundo era esse poço, lembro-me apenas da escuridão imensa pela qual estava rodeado. Foram dias verdadeiramente insuportáveis. As noites eram o pior, quando me encontrava comigo mesmo, o escuro e as paredes do quarto. As insónias tinham voltado com a força toda, independentemente do quão cansativo fosse o meu dia. Mas nesta fase percebi o quão realmente belas eram as relações platónicas que tinha construído ao longo da minha vida. A intimidade e a proximidade que nelas encontrava demonstraram ser das formas de amor mais puras que nela possuía. E esse amor começou a ser a minha lanterna a cada passo que dava nessa imensa escuridão. À noite, enquanto percorria os sombrios caminhos da minha mente começaram a aparecer memórias de uma vida passada. Coisas que já me tinha esquecido ao tempo. O David que queria ser veterinário, do David que jurava a pés juntos que nunca iria fumar, do David que acordava de manhã, abria a porta da marquise para soltar o gato e corria de maneira desastrada e sonolenta para a cama dos pais para dormir mais uns 30 minutos antes de ir para a escola. Isso eram outros Davids, Davids que já cá não estão. Mas a cada memória, a cada recordação, foram-me mostrando a saída, aos poucos. Existiram outros Davids, antes de existir este David que tenho à minha frente. Eles estão vivos, eles estão comigo, somos um só. Durante esta fase obriguei-me a escrever bastante, mesmo sem me ler ninguém. Escrevemos sempre para alguém, mesmo quando escrevemos para ninguém. Este texto... Escrevo para mim mesmo. Para que o futuro eu não se esqueça que eu existi, eu e todos os outros eus que vieram antes de mim. Prazer David.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Textos Avulso por David de Santa Cruz

in O Varzeense de 30.06.2019

Aqui fica o texto:

Ciclos

A grande verdade, é que é tudo um ciclo. O que é um ciclo? Um ciclo é uma série de fenómenos que se renovam de forma constante. Exemplos? O ciclo da água, do sono, da divisão celular, o da vida é até mesmo as nossas ações, hábitos e rotinas. No fundo rotinas não são nada mais nada menos que um aglomerado de hábitos, e hábitos não passam de ações que repetimos regular e frequentemente, muitas das vezes já sem pensar no seu porquê. E por vezes damos por nós presos naquele "buraco" do qual não conseguimos sair. Tentas, tentas, tentas mas acabas por sempre lá cair. Como se fossem os cães a ladrar e a caravana a passar. Como se fosses TU os cães, presos, a desejar ser a caravana, a partir. E por muito que puxes, essa corrente mantém-te agarrado. E agora pensas "Então tudo o que tenho a fazer é quebrar o ciclo, correto?" Ah mas meu amigo, é aí mesmo que te enganas... Quando quebras um ciclo inevitávelmente entras noutro. Agora imagina que quebras esse também, e o próximo! E o outro que vem depois desse, por assim adiante. Por muitos que quebres mais cedo ou mais tarde irás estar simplesmente a criar um novo, o ciclo "Quebra-Ciclos". Que Ciclante! Ou seja, por muito que tentes escapar nunca irás ser capaz de te ver livre deles. É um ciclo, volta sempre a dar ao mesmo, duh! No momento que cheguei a esta conclusão decidi mudar a minha abordagem. Nós somos um grande ciclo, repleto de tantos outros e pertencente a muitos. O segredo está em seres capaz de visualizar esses fenómenos, o que leva ao quê e a forma de como estes se interligam. Quando fores capaz de decifrar estes fenómenos deixarás de estar tão ignorante ao "Porquê eu? " ou ao "Como é que acabei assim?" e com isso irás poder, deliberadamente, escolher. Porque já que tudo nesta vida é um ciclo, significa que toda esta vida é ridiculamente congruente, e se é congruente é fácil de se seguir, acompanhar e deduzir. É por isso que os momentos de reflexão e introspecção são tão importantes. Eles permitem-te saber quais são os ciclos que estás a entrar, a acompanhar e a sair tal como saber quais queres tomar e afastar. Portanto abre bem esses olhos, pode ser novo para ti, mas de certeza que não é novo para alguém... Simplesmente chegou a tua vez de tomar esse lugar. Quando acabo de escrever um texto como este, penso sempre "pronto, é isto! É este o caminho que tenho de tomar." Mas mais uma vez, é aí que me engano. A grande maioria das vezes significa simplesmente que esse ciclo acabou, e, com essa noção ou não, fica tudo a postos para começar um novo... um outro.

terça-feira, 19 de março de 2019

Textos Avulso por David de Santa Cruz

in O Varzeense de 15/03/2019
Aqui fica o texto:

Firme e frágil

Na minha demanda por querer ser mais, saber e fazer, ansiava pelo dia em que, tal como uma vez ouvi a minha professora de estágio dizer "Cometi um pequeno abuso de poder." Não que ansiei por poder e controlo nos outros, no entanto também nunca gostei que mandassem em mim. Somos livres. Ter poder, ou pelo menos a sua noção parecia-me atraente pela simples ideia de não ter de dar justificações a ninguém. Ah, foi aqui que me deparei com o abismo. As pessoas nunca tem o poder. Só a sua mera ilusão. E aqui está o verdadeiro segredo: as pessoas não o querem. A responsabilidade de ter o poder é demasiado grande para suportar. É por isso que são todos tão rápidos a entrar nas fileiras quando alguém assume o comando. As pessoas querem que lhes digas o que fazer. As pessoas anseiam por tal feito. E é aí que se perde. As pessoas esquecem-se que nada é verdade. Que o que é real e o que é verdade muitas vezes são coisas diferentes. Encara-lo é reconhecer que as nossas fundações e constructos são bastante frágeis. Quer as cobaias sejam nós, os outros, as nossas amizades, relacionamentos, estilos de vida e mesmo sociedade. Todas elas prontas para ruir a qualquer momento, caso o impacto seja forte o suficiente. Poderemos nunca ser capazes de impedir tal impacto, mas não obstante de tal facto temos de estar preparados para agir e reagir na sua chegada. É por isso que devemos procurar ser pastores e não ovelhas, quanto muito cães guarda para defender as ovelhas quando os pastores não se sentirem aptos para tal, tão frágeis como todos os outros.
Outro esquecimento muito comum é o que tudo é permitido. Somos os arquitetos das nossas vidas e como tal temos de ser capazes de encarar as suas consequências sejam elas gloriosas ou trágicas. Vamos parar de atribuir a culpa a terceiros e a eventos que nos transcendem. Sim sim, tens razão, a vida atira-nos muita areia para a cara mas nunca nos impede de a lavarmos. Que somos capazes de ser dois extremos, opostos em todos os sentidos, ao mesmo tempo. E essa linha que separa esses opostos é muito ténue, tão ténue que muitas vezes nos deparamos com escolhas difíceis. O querer ou não querer. Contraditoriamente, um paradoxo. E por serem tão difíceis essas escolhas, muitos de nós preferem não toma-las, deixam o tempo passar, esperando que a vida as faça por elas... Ou um outro. Ter esse poder de escolha pode ser realmente aterrador. Então como é que havemos de abrir os olhos e sair dessa ilusão? É que a mim disseram que não existia vacina para isso.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Textos Avulso por David de Santa Cruz

in O Varzeense de 15/02/2019

Aqui fica o texto:
  
CORRE!

Corre! Eu sei que pensaste que ao correr atrás de algo irias conseguir carregar os teus sonhos, no entanto acabas sempre por te cruzar com tantas pessoas neste longo e estreito caminho. Mas não pares!
Não olhes para trás! Corre! Não é que queira regressar no tempo, estou só a procura do céu que perdi. Espero que compreendas. Pára de fazer essa cara triste de vítima como de quem não entende o que se passa. Mesmo que gentilmente tentes fechar os teus olhos irás continuar a ver tudo aquilo que menos desejas. Sempre te preocupaste por teres dificuldade em conseguir expressar aquilo que sentias. "Quero que ser capaz de ser tão sincero quanto o sou nestas páginas brancas!" Sendo assim do que foges? Da realidade? Não desistas, anda!
Corre! Erros e pecados não desapareceram com lágrimas, vais ter de carregar essa dor contigo para sempre, por isso do que estás à espera neste labirinto sem fim à vista? Corre! Existem um número infinito de caminhos que todos nós podemos percorrer, mas apenas um irá levar-nos ao destino que desejamos tanto alcançar. Qualquer tentativa de "corta-mato" será apenas um mero desvio de rota, mas não te preocupes, irá sempre existir um sítio ao qual poderás voltar. Tudo aquilo que aprendeste ontem, tudo aquilo que irás aprender amanhã, não coloques por nenhuma ordem. Cabe a cada um de nós, indivíduos, dar significado à nossa existência e assumir a responsabilidade da mesma. Sermos capazes de encarar a nossa própria sombra nos olhos. Mas por vezes isso é uma tarefa bastante assustadora. Como é que reagimos quando descobrimos que no fim não conseguimos alcançar os nossos objetivos. Quando sentimos que todo o nosso esforço foi em vão? Quando explodimos e o monstro se apodera de nós. "Eu não estava em mim", "Este não sou eu", "Eu não sou assim". E sentimo-nos frustrados, desamparados, e tentamos perceber quem é este monstro e de onde vêm, e para nossa grande surpresa e choque, acabamos por descobrir que esse monstro não é mais nem menos do que nós próprios. Todas essas facetas que tentamos reprimir são tão nossas como todas as outras.
Não te mintas. A sério, pára. Todos temos o necessário para ser a "melhor" e a "pior" pessoa do mundo, e se não és capaz de reconhecer isso em ti, significa que não te conheces, e se não te conheces então não conheces ninguém. Pois é dentro do nosso interior que ocorrem todas as grandes mudanças, todos os grandes cataclismos. Tu és a tua única certeza. A tua única garantia, para além da morte. Só a partir desse contacto com a tua sombra, do momento em que os teus extremos opostos partem em direção de um a outro e se encontram, e do momento em que começas a ganhar consciência daquilo que és, sentes e pensas é que irás conseguir ganhar uma ideia de como será para os outros. Quero ser capaz de escapar das prisões em que me prendo e de todos os demónios internos que alimento. Pois acredito que a vida foi feita para concretizarmos os nossos sonhos, e o meu sonho é ser um homem livre, pois sou livre para tal. É interessante que quanto mais abandonamos a ideia de somos invencíveis, mais fortes e seguros nos tornamos da pessoa que e somos e que queremos ser. Por isso aspiro que continues a correr! Se realmente queres chegar a algum lado CORRE! Outra vez! Mais uma vez! Uma última vez! No fim de contas, temos uma longa vida pela frente para extinguir estes sentimentos que tanto nos atormentam, não?

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Textos Avulso por David de Santa Cruz



Aqui fica o texto:


Aquilo que eu quero ser

De há uns tempos para cá tenho-me dado cada vez mais a pensar em como é que acabamos assim. Pessoas com o corpo e a mente partidos, pessoas a quem não sobra liberdade e até mesmo pessoas que perdem a sua identidade. Quantos de nós quereriam lutar por algo se soubessem o que sabem hoje? No entanto, existe algo que nos puxa para este inferno. Esse algo, para muitos de nós, não é a nossa própria vontade. Acabam por ir condicionados pelo seu ambiente ou a pedido e expectativas de terceiros, nunca sendo realmente uma decisão sua. E é por isso mesmo que aqueles que se atiram por escolha própria para o inferno veem um inferno diferente de todos nós. Mais! Eles conseguem ver algo para além deste inferno. Será esperança...? Ou só a entrada de outro inferno? Ainda não tenho a resposta para isto. As únicas pessoas que realmente o sabem... são aquelas que continuam a seguir em frente.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Textos Avulso por David de Santa Cruz

in O Varzeense de 30/10/2018

Aqui fica o texto:
Capuchos XXI

“Sinto que se aparecesse numa história seria como personagem secundária. Até na minha própria vida não passo de tal” estes pensamentos assaltavam a mente de José enquanto examinava a contracapa de um romance. “Talvez porque pense demasiado nos outros, talvez por não ter uma grande estima de mim mesmo.“ Estes tópicos eram fundamentais para ser um bom escritor. José considerava que um bom poeta ou escritor nunca era alguém completo, pois se fosse não teria nada de bom para escrever. Mas estas ideias também criavam uma espécie de crise existencial em José, pois passava dias a pedir meio para si, meio para o mundo “Gostem de mim, gostem de mim! Estou aqui, existo…” Hoje damos muita pouca atenção aos outros, por falta de tempo e de vontade. Desapareceu a partilha. E talvez fosse por isso que José gostasse tantos de livros. Um livro é um objeto, uma coisa, que se acaba por tornar viva pois com ela nós podemos partilhar. O livro partilha connosco e nós partilhamos com o livro ao ponto de conseguirmos ter uma relação quase carnal, quase sensual com o livro. E apaixonamo-nos. Quantas vezes já não tinha José se apaixonado por personagens ou pelos autores. E porquê? “Porque isto aqui escrito está a dizer exatamente o que sinto… o que sinto mas não sou capaz de dizer, de descrever.” E era por isso que José queria ser escritor. Queria partilhar com o mundo, marcar pessoas a partir dessa partilha e conseguir com que elas ficassem com o amor pelas coisas belas. E nesses momentos ser apenas uma trivial personagem secundária não lhe parecia assim tão mau. Afinal qual seria a vergonha de o ser se conseguisse com que os outros se sentissem as personagens principais das suas vidas graças à sua escrita? O livro é algo imutável ao tempo. Pode ser lido e relido quinhentas vezes sem nunca haver alguma mudança nas personagens e na história, no seu conteúdo. No entanto ao reler um livro pode haver uma mudança no leitor, seja pelo estado, idade ou mentalidade que se tinha da primeira vez, existirá sempre algo que mude, que passe despercebido mas capaz de mudar o nosso interior, pois é aí que acontecem todas as transformações, todos os cataclismos, quando relemos. Isso é outros dos critérios num escritor, bem, para toda a gente de facto: a capacidade de mudar, adaptar.

Um dos maiores medos de José era esse, chegar o dia onde será incapaz de tal, onde ficará de tal forma preso no tempo que deixará de viver e irá simplesmente existir. Outro dos seus grandes medos era ficar sozinho. Todos os seres humanos necessitam de alguém. Sozinho o ser humano não é nada, não é ninguém pois precisamos de outros (amigos, cônjuges, familiares ou meramente conhecidos) para viver… e para comprar as grandiosas obras literárias que José irá escrever, mas isso é outra história. Mas enquanto José continuar a ser imperfeito, enquanto continuar a querer viver, enquanto continuar com medos, receios e desejos José sabe que conseguirá ter todas as qualificações para ser um grande escritor e, quem sabe, ser promovido a personagem principal da sua história.
18/05/2016

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Textos Avulso por David de Santa Cruz

Inicio hoje uma nova rúbrica, que tem a ver com o meu filho e que nos enche a mim e ao meu marido de muito orgulho. Este é o seu primeiro texto publicado no Jornal O Varzeense de 15.09.2018.  



Aqui fica o texto:

O Jogo da Aldeia 
A aldeia adormece. Adormece porque só assim a morte chega. Adormece porque até a própria vida perdeu a vontade de viver. Os telhados de xisto lamentam já não terem ninguém para abrigar. As pedras da calçada... essas choram e fazem luto às memórias dos bailes de verão onde sorriam a quem dançasse por cima delas. O lobo acorda. Mas as capoeiras estão vazias e os prados por cortar. O lobo adormece. As ruas ficam à espera que o eco do relógio da aldeia passe por elas, solitário. E as árvores de fruto, essas reclamam da sua falta de espaço pessoal já que os castanheiros e os eucaliptos, por já não servirem para a lenha, reproduzem-se como coelhos. O vidente acorda. Mas estas montanhas perdidas no tempo estarão para sempre imutáveis. O vidente adormece. Os carros passam sem fazer qualquer paragem. Não conseguem encontrar neles vontade para se fazer de visitantes e acordar a aldeia. Mas subitamente a aldeia acorda. Estamos na primeira semana de agosto e nos próximos dia a aldeia terá cor, movimento e barulho. Vida. Transforma-se num retiro​ sagrado aos seus ocupantes. Uma cúpula onde se perdem os stresses do mundo. Mas as pessoas ficam com saudade do exterior e uma por uma despedem-se e aldeia deprime. Está cansada de dormir. Anseia pelo dia da sua morte. Mas enquanto o seu nome estiver na fala e no pensamento das pessoas isso nunca acontecerá. E mais uma vez, a aldeia adormece.