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in O Varzeense de 15/03/2019 |
Firme e frágil
Na minha demanda por
querer ser mais, saber e fazer, ansiava pelo dia em que, tal como uma vez ouvi
a minha professora de estágio dizer "Cometi um pequeno abuso de
poder." Não que ansiei por poder e controlo nos outros, no entanto também
nunca gostei que mandassem em mim. Somos livres. Ter poder, ou pelo menos a sua
noção parecia-me atraente pela simples ideia de não ter de dar justificações a
ninguém. Ah, foi aqui que me deparei com o abismo. As pessoas nunca tem o
poder. Só a sua mera ilusão. E aqui está o verdadeiro segredo: as pessoas não o
querem. A responsabilidade de ter o poder é demasiado grande para suportar. É
por isso que são todos tão rápidos a entrar nas fileiras quando alguém assume o
comando. As pessoas querem que lhes digas o que fazer. As pessoas anseiam por
tal feito. E é aí que se perde. As pessoas esquecem-se que nada é verdade. Que
o que é real e o que é verdade muitas vezes são coisas diferentes. Encara-lo é
reconhecer que as nossas fundações e constructos são bastante frágeis. Quer as
cobaias sejam nós, os outros, as nossas amizades, relacionamentos, estilos de
vida e mesmo sociedade. Todas elas prontas para ruir a qualquer momento, caso o
impacto seja forte o suficiente. Poderemos nunca ser capazes de impedir tal
impacto, mas não obstante de tal facto temos de estar preparados para agir e
reagir na sua chegada. É por isso que devemos procurar ser pastores e não
ovelhas, quanto muito cães guarda para defender as ovelhas quando os pastores
não se sentirem aptos para tal, tão frágeis como todos os outros.
Outro esquecimento
muito comum é o que tudo é permitido. Somos os arquitetos das nossas vidas e
como tal temos de ser capazes de encarar as suas consequências sejam elas
gloriosas ou trágicas. Vamos parar de atribuir a culpa a terceiros e a eventos
que nos transcendem. Sim sim, tens razão, a vida atira-nos muita areia para a
cara mas nunca nos impede de a lavarmos. Que somos capazes de ser dois
extremos, opostos em todos os sentidos, ao mesmo tempo. E essa linha que separa
esses opostos é muito ténue, tão ténue que muitas vezes nos deparamos com
escolhas difíceis. O querer ou não querer. Contraditoriamente, um paradoxo. E
por serem tão difíceis essas escolhas, muitos de nós preferem não toma-las,
deixam o tempo passar, esperando que a vida as faça por elas... Ou um outro.
Ter esse poder de escolha pode ser realmente aterrador. Então como é que
havemos de abrir os olhos e sair dessa ilusão? É que a mim disseram que não existia
vacina para isso.
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Paula Santa Cruz